
Crítica: Bacurau
Bacurau é um faroeste sertanejo feroz sobre memória, território e a recusa em desaparecer
Em resumo: Bacurau é cinema brasileiro de gênero no seu ponto mais ambicioso: político sem ser panfletário e divertido sem ser raso. Exige paciência no começo, mas entrega um dos filmes nacionais mais marcantes do século. Nota 4,5 de 5.
Sinopse de Bacurau
Num futuro próximo, o povoado de Bacurau, no sertão nordestino, se reúne para o enterro da matriarca Carmelita. Nos dias seguintes, os moradores percebem que o lugar sumiu dos mapas digitais, que a água chega cada vez mais difícil e que forasteiros estranhos começam a rondar a região.
Bacurau é um daqueles filmes que mudam de pele no meio do caminho. Começa como crônica de um vilarejo esquecido, passa por um suspense de atmosfera rarefeita e termina como faroeste de acerto de contas, sem nunca perder o fio político. Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles transformam o sertão em palco de um conflito sobre quem tem direito de existir, e fazem isso com humor seco, violência estilizada e uma confiança rara no próprio público.
Do que trata Bacurau e por que ele é chamado de faroeste?
No centro da história está uma comunidade pequena, autossuficiente e cheia de rituais próprios: o velório coletivo, a escola, o museu local, o caminhão-pipa que traz água sob ameaça. Quando o povoado deixa de aparecer nos sistemas de localização, o filme instala uma pergunta incômoda sobre apagamento. Não se trata de um mistério sobrenatural, mas de algo mais concreto e político: o que acontece com quem o poder decide não enxergar.
A estrutura de faroeste está em tudo: o vilarejo isolado, os forasteiros armados, a sensação de cerco e o duelo inevitável. A diferença é que os diretores invertem o ponto de vista clássico do gênero. Aqui, quem observa de fora não é herói civilizador, e quem vive no sertão não é paisagem. Essa virada de perspectiva é a principal ideia do filme, e ele a sustenta com coerência até o último plano.
Como a direção constrói tensão sem pressa?
A primeira metade é quase etnográfica. A câmera passeia pelas casas, pelos rostos e pelas conversas sem urgência aparente, e essa calma é proposital. Ao fazer o espectador conhecer cada morador, o filme transforma qualquer ameaça posterior em algo pessoal. Quando os sinais de perigo surgem, como um drone que lembra um disco voador de filme B, o estranhamento é imediato porque o cotidiano já estava bem estabelecido.
Há referências declaradas ao cinema de gênero dos anos 1970 e 1980, das transições em cortina à trilha que evoca o suspense de John Carpenter. Esse repertório poderia soar como pastiche, mas é usado com função narrativa: ele empresta ao sertão a gramática do cinema de ação americano e, ao mesmo tempo, questiona quem costuma ocupar o papel de vítima e de vilão nesses filmes.

Quais atuações se destacam no elenco?
Sônia Braga compõe Domingas, a médica do povoado, com uma mistura de autoridade, amargura e afeto que rende algumas das cenas mais imprevisíveis do longa. Silvero Pereira, como Lunga, tem presença magnética mesmo com pouco tempo de tela, e Thomas Aquino e Bárbara Colen ancoram o olhar do público na comunidade. O elenco local, com muitos rostos não profissionais, dá textura documental ao vilarejo.
Do outro lado, Udo Kier lidera os forasteiros com uma frieza quase caricatural, e essa caricatura é consciente. Os personagens estrangeiros funcionam como sátira de uma mentalidade predatória, e o roteiro não tenta humanizá-los além do necessário. Pode parecer esquemático para quem espera nuances dos dois lados, mas a escolha combina com o tom de fábula política que o filme assume desde o início.
Vale a pena assistir Bacurau?
Sim, especialmente para quem gosta de cinema de gênero com algo a dizer. Bacurau é um dos filmes brasileiros mais comentados da sua década e recebeu o Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2019. Mais do que o prestígio, porém, vale pela experiência: é um filme que diverte, assusta e provoca discussão ao mesmo tempo, algo cada vez mais raro.
O principal aviso é sobre ritmo e violência. A primeira hora exige paciência de quem espera ação imediata, e a parte final tem cenas gráficas que podem incomodar públicos mais sensíveis. Para quem aceita esse pacto, a recompensa é um filme denso, cheio de camadas e imagens marcantes, que melhora numa segunda sessão, quando os detalhes do povoado ganham novo sentido.
Pontos fortes
- Mistura original de faroeste, ficção científica e sátira
- Comunidade retratada com riqueza e afeto
- Sônia Braga e Silvero Pereira em grande forma
Pontos fracos
- Primeira metade lenta para quem espera ação
- Vilões estrangeiros propositalmente unidimensionais
Veredito: Bacurau merece nota 4,5
Bacurau é cinema brasileiro de gênero no seu ponto mais ambicioso: político sem ser panfletário e divertido sem ser raso. Exige paciência no começo, mas entrega um dos filmes nacionais mais marcantes do século.
4,5/5Perguntas frequentes sobre Bacurau
Bacurau é baseado em uma história real?
Não. Bacurau é uma ficção original escrita por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, ambientada num futuro próximo. O filme, porém, dialoga com tensões reais do Brasil, como o abandono de regiões do interior, a disputa por água e a forma como o poder trata comunidades periféricas.
O que significa o nome Bacurau?
Bacurau é o nome popular de uma ave noturna comum no Nordeste brasileiro, discreta durante o dia e ativa à noite. No filme, o nome batiza o povoado e funciona como metáfora de uma comunidade que parece invisível para quem está de fora, mas que está sempre atenta.
Bacurau ganhou algum prêmio importante?
Sim. Bacurau recebeu o Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2019, dividido com o francês Os Miseráveis, de Ladj Ly. A conquista colocou o filme entre os longas brasileiros de maior repercussão internacional da década e ampliou sua carreira em festivais e salas de cinema.
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