Pôster de O Auto da Compadecida
Crítica

Crítica: O Auto da Compadecida

O Auto da Compadecida: a comédia nordestina que virou patrimônio afetivo de gerações

5,0
Nota SuperFlix (0 a 5)
Título original
O Auto da Compadecida
Ano
2000
Duração
104 min
Direção
Guel Arraes
Roteiro
Guel Arraes, Adriana Falcão, João Falcão
Elenco
Matheus Nachtergaele, Selton Mello, Fernanda Montenegro, Marco Nanini, Denise Fraga
Gêneros
Comédia, Fantasia
País
Brasil

Em resumo: O Auto da Compadecida é uma comédia rara, que diverte, critica e emociona na mesma medida. Guel Arraes respeitou o espírito de Ariano Suassuna e entregou um clássico popular que continua irresistível. Indispensável. Nota 5,0 de 5.

Sinopse de O Auto da Compadecida

No sertão da Paraíba, os amigos João Grilo e Chicó sobrevivem à pobreza na base da esperteza e das histórias inventadas. Seus golpes envolvem o padeiro, a mulher dele, o padre, o bispo e até um coronel da região, e acabam levando a dupla a situações cada vez mais absurdas.

Poucos filmes brasileiros têm frases tão citadas quanto O Auto da Compadecida. A adaptação de Guel Arraes para a peça de Ariano Suassuna transformou João Grilo e Chicó em figuras populares, repetidas em conversas, memes e salas de aula. Por trás da comédia rápida existe uma sátira afiada sobre religião, poder e desigualdade, contada com a linguagem do cordel e do circo. É engraçado, é crítico e, acima de tudo, profundamente brasileiro.

Qual é a origem de O Auto da Compadecida?

O texto original é a peça de Ariano Suassuna escrita nos anos 1950, que mistura a tradição medieval dos autos religiosos com histórias populares do Nordeste e a literatura de cordel. Suassuna construiu personagens que parecem saídos de folhetos de feira, com moral clara e humor direto, mas carregou o enredo de comentários sobre hipocrisia e ganância. O humor, ali, sempre teve alvo certo.

A versão de Guel Arraes nasceu como minissérie exibida na televisão em 1999 e foi remontada para o cinema no ano seguinte. Essa origem explica o ritmo acelerado e a montagem que salta de episódio em episódio. O roteiro, assinado por Arraes com Adriana Falcão e João Falcão, preserva o espírito da peça e incorpora trechos de outras obras de Suassuna, ampliando o universo dos personagens.

Por que João Grilo e Chicó fazem tanto sucesso?

Matheus Nachtergaele e Selton Mello formam uma das melhores duplas cômicas do cinema nacional. João Grilo é o cérebro: magro, rápido, sempre um passo à frente de quem tem mais poder do que ele. Nachtergaele dá ao personagem um corpo nervoso e uma fala ligeira que tornam cada trapaça divertida. Chicó, por sua vez, é o contador de causos medroso, e Selton Mello acerta no tom ingênuo que faz o público torcer por ele.

O carisma vem também do que eles representam. Os dois são pobres enfrentando padre, bispo, patrão e cangaceiro com a única arma que têm: a inteligência. A plateia ri das mentiras, mas entende que elas são estratégia de sobrevivência. Essa identificação ajuda a explicar por que bordões como o famoso "não sei, só sei que foi assim" atravessaram gerações. É humor com lado definido.

Cena de O Auto da Compadecida
Imagem: divulgação

O filme é só comédia ou tem crítica social?

É as duas coisas ao mesmo tempo. Por baixo das piadas, O Auto da Compadecida aponta o dedo para uma igreja que negocia bênçãos, para patrões que tratam empregados pior que animais de estimação e para uma justiça que muda conforme o bolso de quem pede. O mérito do filme é fazer essa crítica sem sermão, deixando que o ridículo das situações fale por si.

A parte final, que leva os personagens a um julgamento com figuras sagradas, é onde o texto de Suassuna mostra sua face mais humanista. Fernanda Montenegro, como Nossa Senhora, e Maurício Gonçalves, como Jesus, trazem leveza e afeto a uma sequência que poderia soar solene. Sem entregar o desfecho, vale dizer que o filme encontra ali uma reflexão sincera sobre compaixão e perdão.

Vale a pena assistir O Auto da Compadecida?

Sim. O Auto da Compadecida é daqueles filmes que funcionam em qualquer idade e em qualquer contexto, seja na primeira vez ou na décima. O humor envelheceu muito bem porque nasce dos personagens, não de referências da época. E a direção de arte, com cores fortes e cenários que lembram xilogravura, continua bonita de ver. Cada revisão revela uma piada que tinha passado despercebida.

O único ponto que pode incomodar é a montagem acelerada, herança da minissérie, que às vezes atropela transições e deixa alguns coadjuvantes com pouco espaço. Ainda assim, o conjunto é tão bem resolvido que esse detalhe pesa pouco. Para quem quer entender o que faz uma comédia brasileira virar clássico, este é o lugar para começar. Poucos títulos nacionais têm tanta capacidade de reunir a família inteira.

Pontos fortes

  • Dupla Matheus Nachtergaele e Selton Mello impecável
  • Humor que envelheceu muito bem
  • Sátira social inteligente sem perder a leveza

Pontos fracos

  • Montagem acelerada herdada da minissérie
  • Alguns coadjuvantes ficam pouco desenvolvidos

Veredito: O Auto da Compadecida merece nota 5,0

O Auto da Compadecida é uma comédia rara, que diverte, critica e emociona na mesma medida. Guel Arraes respeitou o espírito de Ariano Suassuna e entregou um clássico popular que continua irresistível. Indispensável.

5,0/5

Perguntas frequentes sobre O Auto da Compadecida

O Auto da Compadecida é baseado em qual livro?

O filme adapta a peça teatral O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, escrita nos anos 1950. O roteiro de Guel Arraes, Adriana Falcão e João Falcão também incorpora elementos de outras obras do autor paraibano, como forma de ampliar as histórias de João Grilo e Chicó.

O Auto da Compadecida foi minissérie antes de filme?

Sim. A obra foi exibida primeiro como minissérie na televisão em 1999 e depois reeditada para o cinema, com lançamento em 2000. Por isso o filme tem ritmo episódico e montagem acelerada, já que condensa em pouco mais de uma hora e meia o material produzido para a TV.

Quem interpreta João Grilo e Chicó em O Auto da Compadecida?

João Grilo é interpretado por Matheus Nachtergaele e Chicó, por Selton Mello. A dupla é considerada um dos maiores acertos do filme, e os dois atores voltaram aos papéis anos depois na continuação O Auto da Compadecida 2, também com direção de Guel Arraes.

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