
Crítica: O Auto da Compadecida
O Auto da Compadecida: a comédia nordestina que virou patrimônio afetivo de gerações
Em resumo: O Auto da Compadecida é uma comédia rara, que diverte, critica e emociona na mesma medida. Guel Arraes respeitou o espírito de Ariano Suassuna e entregou um clássico popular que continua irresistível. Indispensável. Nota 5,0 de 5.
Sinopse de O Auto da Compadecida
No sertão da Paraíba, os amigos João Grilo e Chicó sobrevivem à pobreza na base da esperteza e das histórias inventadas. Seus golpes envolvem o padeiro, a mulher dele, o padre, o bispo e até um coronel da região, e acabam levando a dupla a situações cada vez mais absurdas.
Poucos filmes brasileiros têm frases tão citadas quanto O Auto da Compadecida. A adaptação de Guel Arraes para a peça de Ariano Suassuna transformou João Grilo e Chicó em figuras populares, repetidas em conversas, memes e salas de aula. Por trás da comédia rápida existe uma sátira afiada sobre religião, poder e desigualdade, contada com a linguagem do cordel e do circo. É engraçado, é crítico e, acima de tudo, profundamente brasileiro.
Qual é a origem de O Auto da Compadecida?
O texto original é a peça de Ariano Suassuna escrita nos anos 1950, que mistura a tradição medieval dos autos religiosos com histórias populares do Nordeste e a literatura de cordel. Suassuna construiu personagens que parecem saídos de folhetos de feira, com moral clara e humor direto, mas carregou o enredo de comentários sobre hipocrisia e ganância. O humor, ali, sempre teve alvo certo.
A versão de Guel Arraes nasceu como minissérie exibida na televisão em 1999 e foi remontada para o cinema no ano seguinte. Essa origem explica o ritmo acelerado e a montagem que salta de episódio em episódio. O roteiro, assinado por Arraes com Adriana Falcão e João Falcão, preserva o espírito da peça e incorpora trechos de outras obras de Suassuna, ampliando o universo dos personagens.
Por que João Grilo e Chicó fazem tanto sucesso?
Matheus Nachtergaele e Selton Mello formam uma das melhores duplas cômicas do cinema nacional. João Grilo é o cérebro: magro, rápido, sempre um passo à frente de quem tem mais poder do que ele. Nachtergaele dá ao personagem um corpo nervoso e uma fala ligeira que tornam cada trapaça divertida. Chicó, por sua vez, é o contador de causos medroso, e Selton Mello acerta no tom ingênuo que faz o público torcer por ele.
O carisma vem também do que eles representam. Os dois são pobres enfrentando padre, bispo, patrão e cangaceiro com a única arma que têm: a inteligência. A plateia ri das mentiras, mas entende que elas são estratégia de sobrevivência. Essa identificação ajuda a explicar por que bordões como o famoso "não sei, só sei que foi assim" atravessaram gerações. É humor com lado definido.

O filme é só comédia ou tem crítica social?
É as duas coisas ao mesmo tempo. Por baixo das piadas, O Auto da Compadecida aponta o dedo para uma igreja que negocia bênçãos, para patrões que tratam empregados pior que animais de estimação e para uma justiça que muda conforme o bolso de quem pede. O mérito do filme é fazer essa crítica sem sermão, deixando que o ridículo das situações fale por si.
A parte final, que leva os personagens a um julgamento com figuras sagradas, é onde o texto de Suassuna mostra sua face mais humanista. Fernanda Montenegro, como Nossa Senhora, e Maurício Gonçalves, como Jesus, trazem leveza e afeto a uma sequência que poderia soar solene. Sem entregar o desfecho, vale dizer que o filme encontra ali uma reflexão sincera sobre compaixão e perdão.
Vale a pena assistir O Auto da Compadecida?
Sim. O Auto da Compadecida é daqueles filmes que funcionam em qualquer idade e em qualquer contexto, seja na primeira vez ou na décima. O humor envelheceu muito bem porque nasce dos personagens, não de referências da época. E a direção de arte, com cores fortes e cenários que lembram xilogravura, continua bonita de ver. Cada revisão revela uma piada que tinha passado despercebida.
O único ponto que pode incomodar é a montagem acelerada, herança da minissérie, que às vezes atropela transições e deixa alguns coadjuvantes com pouco espaço. Ainda assim, o conjunto é tão bem resolvido que esse detalhe pesa pouco. Para quem quer entender o que faz uma comédia brasileira virar clássico, este é o lugar para começar. Poucos títulos nacionais têm tanta capacidade de reunir a família inteira.
Pontos fortes
- Dupla Matheus Nachtergaele e Selton Mello impecável
- Humor que envelheceu muito bem
- Sátira social inteligente sem perder a leveza
Pontos fracos
- Montagem acelerada herdada da minissérie
- Alguns coadjuvantes ficam pouco desenvolvidos
Veredito: O Auto da Compadecida merece nota 5,0
O Auto da Compadecida é uma comédia rara, que diverte, critica e emociona na mesma medida. Guel Arraes respeitou o espírito de Ariano Suassuna e entregou um clássico popular que continua irresistível. Indispensável.
5,0/5Perguntas frequentes sobre O Auto da Compadecida
O Auto da Compadecida é baseado em qual livro?
O filme adapta a peça teatral O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, escrita nos anos 1950. O roteiro de Guel Arraes, Adriana Falcão e João Falcão também incorpora elementos de outras obras do autor paraibano, como forma de ampliar as histórias de João Grilo e Chicó.
O Auto da Compadecida foi minissérie antes de filme?
Sim. A obra foi exibida primeiro como minissérie na televisão em 1999 e depois reeditada para o cinema, com lançamento em 2000. Por isso o filme tem ritmo episódico e montagem acelerada, já que condensa em pouco mais de uma hora e meia o material produzido para a TV.
Quem interpreta João Grilo e Chicó em O Auto da Compadecida?
João Grilo é interpretado por Matheus Nachtergaele e Chicó, por Selton Mello. A dupla é considerada um dos maiores acertos do filme, e os dois atores voltaram aos papéis anos depois na continuação O Auto da Compadecida 2, também com direção de Guel Arraes.
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